E-mail enviado pelo grupo à Beatriz
Beatriz bom dia,
Primeiramente é um imenso prazer entrar em contato com você, mesmo que por e-mail. Nós vamos fazer algumas perguntas para conhecer um pouco mais sobre a sua vida e o seu trabalho.
- Em uma palavra, como você definiria Beatriz Milhazes?
- Qual o sentido de pintar hoje? A pintura está viva?
- Beatriz, qual a linha de origem de suas pinturas? Como você escolhe o tema que vai pintar?
- Existe em suas obras uma assimilação a de outros artistas? E quais a inspiraram?
- Qual foi a importância, para o seu trabalho, do movimento de volta à pintura da geração de 80?
- Alguns críticos tendem a associar sua pintura ao barroco brasileiro, isso é pertinente?
- As cores significam para o artista muitas coisas, no seu caso, o que elas em geral significam?
- Você não produz mais de 10 pinturas por ano, por quê? Essa pequena produção pode se justificada pelo longo tempo para considerar um trabalho acabado? No começo da sua carreira você também produzia pouco?
- Os altos preços hoje alcançados pela sua pintura, de alguma maneira, a pressionam?
- Você acredita que o Brasil tem menos espaço para arte do que a Europa, por exemplo?
- Qual a mensagem você deixaria aos nossos muitos outros artistas que estão começando, ou àqueles que já possuem certo grau de reconhecimento, mas que ainda não conseguiram expor em grandes galerias e se sentem desamparados de alguma forma?
Obrigada desde já pela sua disposição em nos ajudar. E que mais uma vez fique clara a nossa admiração pelo seu trabalho.
A Seda

Acrílica sobre tela
200x188,8cm
2000
Comentário de Adriano Pedrosa sobre o trabalho de Beatriz Milhazes
"Como a pintura de Gauguin, a de Milhazes é também , a seu modo, enganosa: parece sugerir um paraíso repleto de flores e frutos exóticos de uma natureza abundante pintado em cores alegres e jubilosas, na expressão de Barry Schwabsky em texto publicado nesse livro. No entanto, são pinturas produzidas numa cidade estereotipada pela imagem da abundância da natureza, da beleza e de um variado espectro de prazeres: o Rio de Janeiro. Mais ainda, nos últimos anos as pinturas de Milhazes também vêm sendo exportadas para importantes coleções na Europa e nos Estados Unidos. Nesse aspecto, é fundamental compreender que a pintura de Milhazes recupera para os nativos não apenas a produção de suas próprias imagens, mas sobretudo o eixo de exportação e disseminação delas entre o Sul e o Norte.
Tal operação não é construída de maneira tão calculada pela artista, e o elemento crítico de suas pinturas parece fundar-se justamente na ambivalência. Um segundo olhar detecta mais do que flora e fauna tropicais: do símbolo da paz à joalheria de Miriam Haskell, dos padrões de tecido de Emilio Pucci ao design paisagístico de Burle Marx, do chitão às alegorias de carnaval, dos ornamentos arquitetônicos art déco às geometrias de Bridget Riley. Não se trata tanto de apropriação ou citacionismo, mas de um melting pot em que os elementos utilizados são submetidos a processos mediadores de adaptação, tradução e derivação. A antropofagia é uma forte referência. Se as cores são alegres e jubilosas, a técnica particular de colagem das formas que Milhazes aplica a suas telas confere um aspecto precário e fragmentado ao conjunto. A pintora tropical é uma surfista, e seus Mares do Sul, um vasto junkyard hiperfigurativo, pleno de elementos nativos, estrangeiros, exóticos, genéricos derivativos e bastardos".
Pedrosa, Adriano. Mares do Sul. In: MILHAZES, Beatriz. Mares do sul. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002. p. 81
Comentário de Barry Schwabsky sobre o trabalho de Beatriz Milhazes
"(...) As pinturas de Milhazes tem também um caráter social autoconsciente. Com seus motivos de flores, contas e laços, falam da feminilidade como um constructo histórico e também como um modo de vida - do trabalho que as mulheres fizeram e de prazeres que desfrutaram. Mesmo sem aqueles fragmentos reconhecíveis de imagética que tecem seus caminhos pela abstração de Milhazes, nós observadores poderíamos ainda inalar o aroma desta reminiscência, destilada pela própria padronização à qual aquelas imagens recorrem.
Mas essa padronização, não importa o quão magnífica, não tem maior relevância nas pinturas de Milhazes do que aqueles fragmentos de imagética ornamental.
Aqui tanto o padrão como as imagens estão a serviço da cor - mas a cor funciona de uma maneira tal que sua mera nomeação (que poderia dar a ilusão de que um pouco de cor é uma entidade com auto-identidade, independente , cujos atributos ignoram sua interação com o entorno) é um contra-senso. Uma pintura como Milhazes nos mostra , é uma sociedade de cores, e como tal cria e caracteriza os indivíduos que a constituem. Portanto é a pintura como um todo que confere caráter a cada cor nela contida, tanto quanto ou mais ainda do que cada cor empresta certo caráter à pintura".
Schwabsky Barry. Beatriz Milhazes - cor viva. In: MILHAZES, Beatriz. Mares do sul. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002. p. 109 -110
Comentário de Stella Teixeira de Barros sobre o trabalho de Beatriz Milhazes
"Trabalhando com um método de monotipia onde as imagens são preparadas sobre plástico transparente na medida inversa em que serão impressas na tela, a artista controla a espessura reduzida da matéria pictórica, esconde o gesto da pintura e congela a imagem decalcada. Nesse assentamento da fina película de tinta sobre a tela, pele sobre pele, derme sobre derme, o embate das formas circulares com o princípio geométrico cria uma pintura de sensibilidade hiperbólica, que nasce da luta desvairada entre figuração abarrocada e construção rigorosa - não da luta de um elemento contra outro, de uma vertente contra outra, mas da exaltação mútua que governa a sensualidade barroca revestida de cor matissiana e libera a emoção construtiva embrionária da obra.
As formas circulares reforçam núcleos ao mesmo tempo em que geram deslocamentos ora concêntricos ora expansivos, e perturbam qualquer desejo de hierarquia que a construção racional insiste em reinventar. Por isso são pinturas que não se oferecem ao primeiro olhar.
Impossível determinar planos ou privilegiar uma ou outra forma, pois são pinturas que se dão por inteiro e obrigam o olhar a percorrê-las de maneira escorregadia, sem conseguir singularizar qualquer instância.
Para Beatriz, o barroco se mantém como dado cultural, mas apenas como memória arquetípica. Como emoção, está deslocado e engana motivações saudosistas. Foi sem dúvida extraído por ela de raízes profundas garimpadas do nosso tempo histórico, porém transformou-se em imagem espelhada, em simulacro que adentra e reforça o redemoinho das estruturas construtivas da obra. (...)
É uma pintura onde a reflexão rastreia plasticamente as tensões que se assentam numa aparente solidez da história, mas que se dá como uma nova percepção dos fenômenos e dos significados da criação e da expressão da arte".
BARROS, Stella Teixeira de. [Beatriz Milhazes]. In: BEATRIZ Milhazes. São Paulo: Galeria Camargo Vilaça; Caracas: Sala Alternativa Artes Visuales, 1993. p. [5-6].
Beatriz Milhazes, entre 1981 e 1982, estuda pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage, na qual, mais tarde, leciona. Participa, em 1984, da exposição Como Vai Você, Geração 80? Na opinião do crítico Frederico Morais, a artista revela, desde o início da carreira, a vontade de enfrentar a pintura como fato decorativo, aproximando-se da obra de artistas como Henri Matisse (1869 - 1954). Interessa-se pela profusão da ornamentação barroca, sobretudo pelo ritmo dos arabescos e pelos motivos ornamentais presentes na obra de Guignard (1896 - 1962).
Suas obras da década de 1980 revelam uma tensão entre figura e fundo, entre representação e ornamentalismo. Posteriormente, faz opção por uma pintura de caráter decididamente bidimensional. Beatriz Milhazes revela sensibilidade no uso da cor, como nas obras O Príncipe Real (1996) ou As Quatro Estações (1997).
O Príncipe Real (1996)
As Quatro Estações (1997)
Na tela Mares do Sul (2001) estabelece um jogo com o gênero da paisagem. Em trabalhos mais recentes, utiliza constantemente formas como estrelas e espirais e as cores tornam-se mais luminosas, como em Nazaré das Farinhas (2002).
Mares do Sul (2001)
Nazaré das Farinhas (2002)
A artista trabalha freqüentemente com formas circulares, sugerindo deslocamentos ora concêntricos ora expansivos. Na maioria dos trabalhos, prepara imagens sobre plástico transparente, que são descoladas, como películas, e aplicadas na tela por decalque. Aglomera as imagens, preenchendo o fundo e retocando a imagem final. Os motivos e as cores são transportados para a tela por meio de colagens sucessivas, realizadas com precisão. A transferência das imagens da superfície lisa para a tela faz com que a gestualidade seja quase anulada. A matéria pictórica obtida por numerosas sobreposições não apresenta, entretanto, nenhuma espessura: os motivos de ornamentação e arabescos são colocados em primeiro plano. O olhar do espectador é levado a percorrer todas as imagens, acompanhando a exuberância gráfica e cromática presente em seus quadros.
Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural - Artes Visuais
EXPOSIÇÃO

Na virada do ano de 2003 o Centro Cultural Banco do Brasil - RJ promoveu a exposição "Mares do Sul", de Beatriz Milhazes. Tive a oportunidade de ver esta exposição maravilhosa e reproduzo abaixo o texto do catálogo.
BEATRIZ MILHAZES (Rio de Janeiro, 1961) é um dos principais expoentes da pintura contemporânea internacional, com obras em coleções como as do Museo Reina Sofia, Madri, Carnegie Museum, Pittsburgh, e The Museum ofModern Art, The Metropolitan Museum of Art e Guggenheim Museum, Nova York. Mares do Sul é a primeira exposição panorâmica da artista e inclui pinturas produzidas desde 1993. O título da exposição, emprestado de uma obra de 2001, faz referência ao universo do impressionista francês Paul Gauguin, exilado no Taiti na virada do século xx. A obra de Milhazes é freqüentemente compreendida como uma representação gloriosa de uma exuberante gama de objetos tropicais, numa visão um tanto estereotipada. Entretanto, um segundo olhar poderá detectar mais do que flora e fauna nativas-do símbolo da paz à joalheria de Miriam Haskell, dos padrões de tecido de Emilio Pucci ao paisagismo de Burle Marx, do chitão às alegorias de carnaval, dos ornamentos art déco à geometria de Bridget Riley. Não se trata de apropriação ou citacionismo, mas de um melting pot em que os elementos utilizados são submetidos a processos mediadores de adaptação, tradução e derivação. Se suas cores são alegres e jubilosas, a técnica particular de colagem que Milhazes emprega confere um aspecto precário e fragmentado às telas. A pintora tropical é uma surfista, e seus Mares do Sul, um rico junkyard hiperfigurativo, pleno de elementos nativos, estrangeiros, exóticos, genéricos, derivativos e bastardos
Por Adriano Pedrosa
LANÇADO LIVRO SOBRE BEATRIZ MILHAZES

Todo final de ano o Banco Pactual lança um livro de arte que é distribuído a seus clientes como brinde natalino. Já foram lançadas obras abordando artistas como Iberê Camargo, Goeldi, Milton Dacosta, Ivan Serpa e Ismael Nery, dentre outros. As edições são sempre luxuosas, caprichadas e cheias de ilustrações de excelente qualidade.
Este ano o artista brindado com tal deferência foi a carioca Beatriz Milhazes. Quem escreveu os textos foi o crítico Paulo Herkenhof. Para os curiosos há até uma passagem abordando a técnica empregada por ela (sem dar o "pulo do gato", é lógico).
Na foto ao lado, em sentido horário, pode-se ver a capa do livro, dois trabalhos da década de 80 (início da carreira dela), dois trabalhos de 1997, onde já está consolidado seu vocabulário atual, e trabalhos de cenografia que ela realizou em 2004 para o espetáculo "Tempo de Verão", da companhia de dança de sua irmã, Márcia Milhazes.
Além de pinturas há serigrafias, fotos do trabalho realizado no metrô de Londres (2005), da ambientação para o restaurante da Tate Modern, a fachada da loja de departamentos londrina Selfridges (2004) e os banners para a fachada do MOMA (2000).
Como o livro saiu em conjunto com a editora Francisco Alves, não custa nada dar uma passada na livraria mais próxima e tentar achar. O que custa mesmo é o preço, que deve ser bem salgado.
Matéria do Site Conexão Arte de Janeiro de 2007
Sucesso também lá fora

Frieze: revista de arte inglesa é só elogios a Beatriz
O nome de Beatriz Milhazes começou a circular fora do país em 1993, ano em que fez sua primeira exposição no exterior. O début foi em Caracas, Venezuela, e hoje críticos de revistas e jornais anunciam com entusiasmo a descoberta da carioca. A edição de outubro da revista inglesa Frieze dedica a matéria de capa, escrita pela crítica Jennifer Higgie, ao trabalho da artista, com expressões elogiosas do tipo "caleidoscópio psicodélico de cores, flores, amor" e "loucura tecnicolor". Também em outubro, o jornal português Expresso publicou em seu suplemento cultural uma extensa entrevista com Beatriz, que tem cinco telas expostas na Galeria Pedro Cera. O jornalista Celso Martins escreve que as individuais da artista em Londres, Paris e Nova York foram muito bem recebidas, com elogios "à frescura e à complexidade" do trabalho. Já Vitamin P – New Perspectives of Painting (Novas Perspectivas da Pintura), publicação inglesa da Phaidon Press, saiu em setembro com uma seleção super-rigorosa de pouco mais de 100 nomes de pintores contemporâneos de todo o mundo. Apenas dois artistas brasileiros foram citados por críticos e curadores: Beatriz Milhazes e Adriana Varejão.
Matéria da Veja - Rio de outubro de 2002
Façam fila! Com compradores em lista de espera, Beatriz Milhazes lança livro no Brasil e abre mostra de gravuras em Nova York
"O Elefante Azul"; valor das telas ultrapassa os U$ 100
Espirais, cores, flores, rendilhados, cifrões. Pelos cálculos da galeria Fortes Vilaça, a lista de espera para comprar trabalhos da carioca Beatriz Milhazes, 46, já ultrapassa os cem nomes -fenômeno raro no mercado de arte brasileiro. Sua obra é tema do livro de Paulo Herkenhoff "Beatriz Milhazes: Cor e Volúpia" (editora Francisco Alvez, 264 págs., R$ 120, lançamento dia 19/3 no Rio). Além disso, acaba de ser inaugurada no Soho, em Nova York, uma loja da editora Taschen decorada pela artista.
Em entrevista à Folha, por telefone, Milhazes contou sobre estes últimos projetos e sobre os planos que tem para o futuro próximo -inaugura no dia 9 uma exposição de gravuras na James Cohan Gallery, também em Nova York e, em novembro e expõe na Estação Pinacoteca com a curadoria de Ivo Mesquita.
"Por incrível que pareça, vai ser minha primeira exposição em instituição em São Paulo. Já fiz Bienal [participou da 24ª, em 1998, e da 26ª, em 2004, quando foi tema de sala especial] e galeria sempre, mas instituição não. Estou animada", diz Milhazes. Segundo ela, a exposição será "uma espécie de panorama", cobrindo várias épocas de seu trabalho e deverá incluir obras de fora do Brasil -pelo menos uma inédita, produzida especialmente para a mostra. "Acabo de voltar a pintar depois de um longo tempo tocando outros projetos. Trabalhei feito uma moura, mas a pintura propriamente dita estou retomando só agora." A baixa produtividade - pinta uma média de dez telas por ano- é um dos motivos apontados pela galeria para explicar a famosa "fila" paulistana.
Sobre os outros projetos a que se refere, o ano passado assistiu a pelo menos três deles: a decoração do restaurante da Tate Modern, em Londres, um projeto para a estação de metrô de Gloucester Road, também na capital inglesa, e seis painéis de grandes dimensões para a nova loja da Taschen, em Nova York. O que os três trabalhos parecem ter em comum é a busca pela simplificação formal, de uma pintora acostumada ao excesso, ao barroco.
"Todos esses projetos, por questões ligadas ao tamanho e também ao suporte - a técnica final não é pintura, mas sim impressão sobre um tipo de vinil (Taschen) ou vinil adesivo recortado (Tate e Metrô)- trouxeram novas possibilidades para o meu desenho. Eu tive que simplificar. Meu trabalho é cheio de detalhes, mas esses detalhes não têm como existir numa dimensão destas", explica.
Paralelamente, a artista também trabalha junto à irmã, a coreógrafa Márcia Milhazes -Beatriz é a cenógrafa oficial da companhia, que estréia hoje à noite a turnê americana do espetáculo "Tempo de Verão", no Dance Theater Workshop, em Nova York.
Reportagem de GABRIELA LONGMAN, publicada na FOLHA DE S.PAULO-Ilustrada, em 05 de março de 2007 (Continuação....)
Façam fila! Com compradores em lista de espera, Beatriz Milhazes lança livro no Brasil e abre mostra de gravuras em Nova York
Cor e volúpia
Enquanto esteve no Rio -ela está sempre indo e vindo- Milhazes preparou, no ano passado, o livro que revisita sua obra desde os anos 80, com textos de Paulo Herkenhoff. O crítico optou por uma abordagem não-cronológica de sua obra, dividindo o livro em eixos "temáticos" e agrupando questões recorrentes na pintura da carioca: "Paisagem", "Música", "A História do Círculo" são alguns dos "capítulos-tema" definidos por Herkenhoff.
"Achei ótimo o livro misturar épocas diferentes, sem fazer nada muito cronológico para não ficar uma coisa muito didática. Meu trabalho se desenvolve dessa maneira. Eu tenho aspectos que surgem no ano 2000 e com os quais posso voltar a trabalhar em 2006, por exemplo. Normalmente, a cada mostra que faço inicio novas questões, mas não as extermino naquele grupo de trabalhos e elas podem sempre ser retomadas", complementa.
Os textos de Herkenhoff descrevem a trajetória da artista, que teve sua formação baseada principalmente na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (em 1984 participou da emblemática mostra "Como Vai Você, Geração 80?") enquanto dava aula particular de geometria para crianças.As referências da pintura da artista vão do Carnaval ao barroco, passando por Mondrian, Carmen Miranda, crochê, Volpi, tropicália... Foi este procedimento de juntar cores, padrões, formas e aplicações em decalque que levou-na a integrar, em 2003, o pavilhão brasileiro da 50ª Bienal de Veneza.
"A pintura de Milhazes é uma espécie de flora saída da "Primavera" de Botticelli em sintaxe contemporânea, pintada com os pincéis femininos pop de Andy Warhol", escreve o crítico no livro.
Passo a passo
Com a carreira internacional já estabilizada, Milhazes trabalha com gravuras vinculada a um estúdio da Pensilvânia e termina a reforma de seu ateliê no Jardim Botânico. "Na minha vida foi tudo etapas por etapas, "step by step", eu não tive uma coisa fulminante que acontece com alguns artistas - aos 20 e poucos anos estoura, recebe toda a atenção e aquilo passa. Tive um processo denso no Brasil até o início dos anos 90 e só depois a internacionalização."Processo lento e gradual. Mas e a fila? Quem são essas pessoas esperando para pagar mais de U$ 100 mil pelas cores e formas da carioca? Beatriz dá risada. "Sei que há uma demanda, mas longe de mim saber desta história de fila... Ligue lá para a Fortes Vilaça..."
Reportagem de GABRIELA LONGMAN, publicada na FOLHA DE S.PAULO-Ilustrada, em 05 de março de 2007
Serpentina - 2003

Serigrafia em cores [Multi-colored screenprint]
132x132cm
Edição de 40
Beatriz Milhazes faz sua primeira grande mostra no Rio e inaugura coleção de livros do MoMA de NY
Pintura geométrica e cores caipiras, rigor formal e carnaval. A capacidade de conciliar universos tão distantes talvez explique o sucesso de Beatriz Milhazes. A pintora carioca, de 42 anos, inaugurou a exposição "Mares do sul", que ocupa todo o segundo andar do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e mata a curiosidade dos cariocas em relação à sua obra. Com 20 anos de carreira, Beatriz tem hoje quadros nas coleções de museus como o MoMA e o Guggenheim, em Nova York, o Reina Sofia, em Madri, e o Century Museum of Contemporary Art, no Japão, mas nunca tinha feito uma grande mostra no Rio.
Colecionadores do mundo inteiro fazem fila para esperar por um quadro seu, cujo preço pode passar de US$ 40 mil. Fala mansa e jeito simples para explicar seu trabalho e suas influências — que vão da arte popular brasileira aos efeitos ópticos da inglesa Bridget Riley — Beatriz não mudou com o sucesso.
— A questão central é a honestidade. Só sendo honesto consigo mesmo e suas questões é que seu trabalho acaba aparecendo — diz ela. — Minha pintura tem as mesmas características desde o início da carreira, mas fui criando novos problemas para ela e tendo mais segurança sobre meus desejos. Sempre amei pintura geométrica, mas não poderia pintar só retângulos e círculos, porque meus interesses em arte vão muito além disso.
Os muitos convites para exposições internacionais fazem com que Beatriz passe boa parte do ano viajando, mas sempre que pode ela volta para o ateliê que mantém desde o início da carreira num sobrado no Horto, com vista para o Cristo e para o agito do Clube Condomínio. No artigo sobre sua obra que foi capa da última "Frieze", a mais importante revista de arte da Inglaterra, a crítica Jennifer Higgie escreveu, espantada, que Beatriz "ainda" morava no Rio. A pintora diz que não gosta de perder de vista a atmosfera carioca. Foi com ela, aliás, que procurou impregnar "Coisa linda", livro sobre sua obra que o MoMA lança em dezembro. Ela foi escolhida entre artistas de todo o planeta para abrir a coleção de livros-obra. E resolveu que os exemplares, que vão custar cerca de US$ 1.800 cada, deveriam vir com um CD com canções de gente como Tom Jobim, Caetano Veloso e Pixinguinha, que a ajudassem a decifrar o lugar de onde veio.
— As letras falam do Rio feliz que eu queria que todos os cariocas tivessem — diz ela.
Editora do MoMA elogia singularidade da artista - May Castleberry, diretora do conselho editorial do MoMA, conta que a singularidade da pintora pesou na hora da decisão sobre o artista que iria inaugurar a coleção:
— Ela tem uma obra alegre e divertida, mas sobre a qual tem absoluto controle. No livro, há uma peça orquestral, "Ingênuo", com uma flor. É espontânea, mas evoca a vanguarda russa. Não é qualquer um que consegue fazer algo que incorpore inocência e ao mesmo tempo tenha ressonância na história.
Em um texto do catálogo da exposição — produção do Instituto Arte Viva com curadoria de Adriano Pedrosa — o crítico Paulo Herkenhoff diz que também não é qualquer um que atinge o domínio que Beatriz tem da cor.
— Ela resolve com grande originalidade as questões da cor e da composição — faz coro outra pintora, Adriana Varejão.
Beatriz usa os contrastes e afinidades entre as cores para equilibrar dezenas de elementos. Bordados, flores, rendas e mandalas se sobrepõem em infinitas camadas, numa leitura atualíssima de nossa tradição barroca.
— A cor organiza tudo. Com ela, trabalho a tela como se ela fosse música — diz a artista, que formou uma espécie de linguagem com os desenhos que se repetem em seu trabalho.
Reconhecida por sua disciplina, Beatriz construiu sua carreira como formiguinha, amadurecendo um passo de cada vez para desabrochar em meados dos anos 90.
— O sucesso de Beatriz vem da qualidade de seu trabalho, mas também da seriedade com que ela lida com a carreira — acredita Alessandra Vilaça, uma das sócias da galeria Fortes Vilaça, que representa a artista. — Passamos por um momento que dá mais atenção à pintura. Percebe-se que ela é tão passível de ser contemporânea quanto outras mídias, digamos, mais tecnológicas. Com isso, um trabalho bom acaba tendo visibilidade.
Uma infância com Tarsila e Clementina - A artista e a irmã, a coreógrafa Márcia Milhazes, foram criadas num ambiente que estimulava a criatividade. A mãe, Glauce, é professora de história da arte. O pai, o advogado José Milhazes, sempre foi um apaixonado pela música brasileira. Pequenas, as duas já admiravam Tarsila do Amaral e Tom Jobim, Volpi e Clementina de Jesus, Guignard e Caetano Veloso. Hoje, Caetano passou de ídolo a fã e é dono de "A seda", uma das telas no CCBB. Márcia vê semelhanças entre seu trabalho e o da irmã, que já fez cenários para seus espetáculos:
— Nós criamos trabalhos que são camadas e camadas de idéias buscando significados. Bia tem personalidade e coragem numa contemporaneidade que às vezes é muito chata. É um privilégio ter uma irmã que me estimula. Dividimos até o silêncio.
Daniela Name, do jornal O Globo - 25/10/2002
Mostra de Beatriz Milhares no metrô de Londres
Diálogo Visual
Combinação Abstrata
Os responsáveis pela exposição dizem que ela cria um "diálogo visual" com a arquitetura e o constante movimento de trens e passageiros. Os 19 vãos arqueados de um dos lados da estação de Gloucester Road estão cobertos por composições da artista. As cores são vibrantes e as formas, exuberantes, segundo os organizadores.O trabalho de Beatriz Milhasez têm influência da arte folclórica, do carnaval e do barroco brasileiro. Essas influências são transformadas em padrões abstratos e formas ornamentais.
Mostra de Beatriz Milhares no metrô de Londres
A exposição ocupa um dos lados da plataforma da estação.
Arcos de Cor
Arcos de Cor 2
Paz e Amor